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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Uma prece para os homens sem Deus - Gordurinha (Gordurinha - 1968)

"Guerra ou paz, eis o dilema. Entre uma e outra, a inquietação. Essa dispneia coletiva, essa asfixia em forma de interrogação. E nós precisamos de uma coisa só: fé comum a todos. Precisamos remover a montanha do ceticismo e da indiferença. Precisamos degelar esta cordilheira de ódios e incompreensões."

Meu deus,
Por que é que nesta terra
Pedem paz e fazem guerra
E fazem guerra pela paz?

Meu deus,
Por que é que os homens agem
Sempre em nome da coragem
E apunhalam só por trás?

A fortuna correndo atrás
De quem já tem dinheiro
E o faminto se foge da fome
Ela vai atrás

Oh, meu deus, o sertão está seco
Só chove na praia
O oceano está cheio d´água
Não precisa mais

Muita gente com a reza na boca
E o ódio no peito
O cristão fazendo mal feito
Com a bíblia na mão

A ganância na terra entre os homens
Gerando conflitos
E a ciência a serviço do mal e da destruição

Meu deus, anulai a profecia
Pois o mundo qualquer dia
Vai mergulhar num vulcão
Meu deus, aumentai a nossa crença
Pra que o homem se convença
Que o mundo inteiro é cristão.

Poeira de morte - Gordurinha (Mamãe! Estou agradando - 1961)

Tá vendo essa roupa cáqui
Já foi branca meu patrão
Acontece que eu vim de longe
Em cima de um caminhão

E a poeira do norte
Naquela estrada de morte
Tem dó de mim meu patrão
E vê se ajuda seu irmão

Eu quero trabalhar o dia inteiro
Nem que seja pra ganhar um tostão
Eu já não posso mais
E voltar atrás eu não quero não

Chega de viver torrado
pelo sol malvado que só quer matar
Chega de dizer que a fome
É direito do homem que não quer roubar
Patrão não estou aqui
Não foi pra divertir e nem ver carnaval
Apesar do que sofri no norte
Sou caboclo forte quero trabalhar

terça-feira, 11 de junho de 2019

Fornalha - Gordurinha (Um espetáculo - 1963)

A minha dor é tão grande
Não dá pra cantar num baião
Quem não acredita, eu já sei
Que não sabe o que é Sertão

Se eu pudesse fechar a comporta do meu peito
Não havia um açude maior que o meu coração
Que cachoeira, que queda d'água
O meu pranto nasce da mágoa
E despeja nas águas do mar da ilusão


Eu não creio que o céu tá vazio
E Deus não escute
Minha prece rezada com fome, joelho no chão
O sol é quente, a dor espalha
E a terra é agora fornalha
Onde o ódio trabalha plantando aflição.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Se chovesse no Nordeste - Gordurinha (Um espetáculo - 1963)

Se tivesse praia em São Paulo
Mas não tem é uma pena
Cimento armado nunca foi areia
E lá não tem sereia da pele morena
Se caísse neve no rio
Era cada loira de tirar o chapéu
Se chovesse no nordeste
O meu ceará era um céu
Melhores explicações só perguntando a natureza
Por que nordestino é triste?
Por que que o nordeste é tristeza?
Por que aleijado não anda?
Por que mudo não pode falar?
Sei lá esse mundo não é meu
Então não sou eu quem posso lhe explicar
São Pedro fez um contrato para chover no ceará
Depois do papel todo pronto
São Pedro esqueceu de assinar.